terça-feira, 29 de novembro de 2005

Será?

Ja me peguei várias vezes refletindo acerca da minha provável frieza. Será mesmo que estou me tornando um ser frio, calculista e impiedoso?

Nas minhas andanças por esse meu Rio de Janeiro, vejo diversas coisas que me assustam e uma delas é a criançada vendendo balas e fazendo malabarismo no sinal.

Eram quase quatro da manhã e estava voltando de uma festa, dando carona para um amigo. Parei no sinal, muito cabreiro, e uma criança se aproximou do carro e começou a fazer malabarismo com limões. Gente, eram 4 horas da manhã! Aquela criança estava no meio da rua, fazendo malabarismo na frente do meu carro. De madrugada!
O sinal abriu e o menino veio até a janela e com um gesto, disse que nao ia dar dinheiro e fui embora. Meu amigo quase me xingou, me chamando de desumano, frio, "sem coração" e tudo mais.

Me senti mal por causa disso e tentei achar um motivo pro meu mal estar, - já que sou radicalmente contra "alimentar" esse tipo de coisa. Quanto mais você da, mas eles vão ficando e mais crianças vao aparecendo pelas ruas. Sou contra! Não adianta! Sou contra! - pois acho que temos que fazer alguma coisa e nao deixar que a omissão do governo tome conta, mas dar dinheiro assim, na rua, no sinal, nao vai mudar nada. Só vai estimular esse descaso das autoridades.

Sinceramente, nao sei se é frieza, nao sei se é calcular o sentimento, nao sei se é desumano. To mais incrédulo com as coisas e pessoas hoje em dia do que era ha alguns anos atrás, onde achava sentimento até numa pedra.

Naquela noite algumas coisas "estavam fora do lugar". Eu, parado no sinal de madrugada, era uma delas. Uma criança fazendo malabarismo, como se fosse a coisa mais normal do mundo naquela hora, era outra. Tava tudo errado! Aliás, ha muito tempo que as coisas andam na contra mão do progresso.

Não me acha frio e nem "sem coração", só vejo as coisas de uma outra forma. Mais secamente... pode ser. Só vejo soluções de um outro ângulo e isso me faz parecer um ser desumano.

Continuo com a mesma idéia fixa na mente. Nao vai ser dando dinheiro pra essas crianças que a gente vai ajudá-las! A gente vai ajudar dando estudo, comida, amor, condicões mínimas de higiene... de ter opção de escolha de um futuro pela frente.


Até.

3 comentários:

Costurando o invisível disse...

Seu amigo é um antropólogo gringo?!
hehehehe
Brinquei pra descontrair, mas falando sério:
Desumano tem a ver com essa criança fora de casa as 4 da manhã sim, mas não com vc TER que dar dinheiro e assim sustentar a atitude deturpada dela. Já dei oficina de música e capoeira pra crianças da favela, tenho certeza que educar sim é humanizar e contribuir. Mas acho muito complicado essa questão da miséria, do descaso,... Prq a falta de humanidade não deve ser jogada nas costas de quem também é vítima do sistema mas tem, aos olhos de uns, uma situação mais privilegiada. Prq é muito fácil abrir o vidro e se fazer de caridoso, humano e pensar q sua parte vc fez. Difícil é entender que vc tbm é vítima e que umas moedas não farão diferença na vida dessa pessoa, pelo contrário.
Eu tô contigo e não abro! (não abro o vidro nem a mão pra esse tipo de conivência). Mas tô aí disposta a educar e a tentar por meios mais substanciais a mudar a perspectiva da miséria humana (de sentimento, de sabedoria... e, assim, tbm de valores).

Poliana Pitanga.

Renatinha Leão disse...

Gui, concordo com vc em gênero, número e grau. Dar dinheiro pra crianças no sinal é uma forma d corrupção, no meu ver. Criança tem q ir pra escola, criança tem q ter tempo pra brincar, criança tem q ter comida, tem q ter acesso a meios para a prática da higiene diária, criança tem q ter as condições básicas para se tornar um cidadão produtivo qdo crescer. Criança não precisa d dinheiro. Às 4 hrs da manhã, esta criança tinha q estar em casa, dormindo perto d seus pais, ou d quem deveria estar cuidando dela. Dar dinheiro é "alimentar" esse comportamento social q mais parece um tumor social. Não acho suas colocações radicais nem duras. Acho-as coerentes e mto bem articuladas. Continue expressando suas opiniões e refletindo sobre os assuntos. É assim q a gente contribui, nem q seja com um grãozinho, pra uma mudança evolutiva d consciência coletiva. Beijo bem grandão da mais nova fã.

Afonso Cardoso disse...

Concordo plenamente. O Brasil precisa avançar muito nesta questão. Em Porto Alegre, quando morei, existia um programa da prefeitura para que a população deixasse de dar esmolas, pois isso faria com que as pessoas que realmente necessitassem, procurassem os abrigos públicos ou outros programas sociais. Às vezes me sentia como você, mas é o que tem que ser feito. Um abraço!

Afonso Cardoso - Belém/Pará
ajfcardoso@gmail.com